sábado, abril 24, 2010


Lake Moraine

Saiu correndo depois que recebeu a noticia, não acreditava que tantos anos dedicados a uma só pessoa não tinha dado nenhum resultado. Agora, seus caminhos estavam distantes, separados, como se fossem dois estranhos. Estava disposta a fingir que nunca tinha o visto, sentido, tocado, olhado. Estava disposta a fingir que não o conhecia.
Correu. As lágrimas vertiam dos seus olhos como cachoeiras, escorriam pelo seu rosto sofrido, que transbordava toda a dor que seu coração sentia naquele momento. Não sabia pra onde estava indo, e não importava. Só queria ir pra longe, longe e suficiente dele.
Sentou em um banco da praça. Era outono, época de renovação, e logo ela não estava nenhum pouco renovada. As pessoas a olhavam, não tinha como não olhar. Era linda, cabelo curto e bem preto, olhos azuis, tão azuis quanto as águas do Lago Moraine, sua boca pueril, desenhada e vermelha, quase tão vermelha quanto seu sangue. Por tantas vezes tinha tentado ser invisível, imperceptível, e agora sabia por que não conseguia.
Precisava segurar alguma coisa, há muito tempo não ficava com as mãos livres das deles quando saiam de casa. Mexeu na bolsa, procurou, revirou, re-revirou. Acabou por pegar o celular. Quatro chamadas não atendidas. Ele. Era quase impossível acreditar que ele voltara a correr atrás dela, depois de tudo, depois dos olhos fervilhando de raiva por uma coisa que ela sequer tinha conhecimento. Depois de todas as palavras ditas, os horrores pronunciados negando todo o amor que um dia, talvez, ele tivesse sentido.
Continuava querendo fugir, sumir, evaporar. Ainda mais agora que sabia do arrependimento dele. Fechou o celular e jogou longe, com toda a força, com toda a raiva, com toda a angústia que alguém poderia sentir em um momento como aquele. Viu, de longe, o aparelho atingir o chão em câmera lenta, cada pedaço indo pra um lado diferente: a bateria, o teclado, o display, tudo. Mas ainda assim, nada reduzia aquele aperto no peito.
Um carro passou, lento, perto de onde ela estava sentada. Pelo vidro filmado, enxergou seu reflexo. Nada nela parecia igual, nada nela parecia o mesmo. Os olhos claros ainda estavam lá, a boca vermelha talvez estivesse tão vermelha quanto antes, mas a expressão mudara e, naquele momento, sabia que não era mais ela. Sabia que alguma coisa dentro dela havia mudando, sentia que alguma coisa não era mais como antes, sabia que, a partir de agora, tudo ia ser diferente.
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Folhas Secas

A rua estava úmida e no ar, aquele cheiro de terra molhada. Tudo típico de um dia chuvoso. Tínhamos combinado de nos encontrar às 15 h e eram 14:30, eu ainda tinha tempo.
Saí andando, pulando discretamente nas poças como fazia quando criança. Antes a preocupação era só o resfriado, agora, eu perderia o sapato, o salto, a pose, a decência e molharia a barra da calça caríssima, além de poder ficar doente. Parei. Continuei o trajeto caminhando lentamente, analisando cada passo, cada folha, cada gota d’água que caia no chão e no meu casaco, deixando pequenas manchas que logo secariam. O parque estava vazio - pessoas normais não vão ao parque enquanto chove -, mas ele estava lá, parado. A capa amarela e as galochas azuis ficavam estranhas, quase cômicas, mas eu já havia me acostumado a sua constante falta de estilo. No fundo, eu até achava charmoso.
Como sempre, meus olhos pretos sorriram antes da minha boca carmim, mas os dele não. Nem os olhos, nem a boca. Ele tinha acabado de chegar de viagem, não entendi o que realmente acontecia. Antes de ele ir, tudo estava bem. Bom, bem talvez não, mas tudo estava indo como mandava o figurino.
Não houve discussão. Sequer houve uma explicação. Eu não supliquei, e eu sei que ele não esperava isso. Mesmo que esperasse, não iria ceder aos meus pedidos desesperados para que ele não fosse embora.
Não se pode forçar alguém a te amar, nem se pode pedir um motivo para quando essa pessoa deixa de te amar. As coisas acontecem assim: quando acabam, acabam. E, na maioria das vezes, nem existe um motivo, somente um abrir de olhos para a realidade e um entendimento para o que estava acontecendo até o momento.
Ele virou as costas e eu fiquei ali, parada. Não esperava uma explicação dele, mas eu queria entender o que estava acontecendo. Talvez, enquanto andava pela avenida quase sem movimento com aquela capa amarela e galochas azuis que agora pareciam ridículas, ele estivesse a caminho do motivo por me deixar. Ou não.
Pensando bem, já não combinava mais nós dois de mãos dadas pela rua. Era estranho o modo como aquilo passara a ser vergonhoso, para as duas partes. Nos isolávamos um do outro, éramos fechados, como “companheiros” que se procuram para os momentos bons mas que não tem confiança suficiente para contar um segredo.
A minha insistência foi porque achei que a culpa era minha e, por isso, eu era a encarregada de resgatar o nosso amor. Mas nós fomos nos dissipando, nos afastando com o tempo, com as viagens dele, com os meus compromissos, os meus quadros, os meus projetos, os meus artigos, os meus livros, e não havia mais tempo na vida de nenhum de nós dois. Efeito reverso do amor.
Agora, tudo não passa de sentimentos a serem esquecidos, superados, deixados para trás, como folhas secas pelo chão nas frias tardes de Outono.
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Fato

"Estou aqui não porque deva estar, nem porque me sinta cativa nesta situação, mas porque prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo."

Richard Bach

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Borboletas no Estômago

“Eu abro os olhos e você me fita, me olha, talvez até me devore. Eu abro os olhos e lá está você, ainda lá, do mesmo jeito de antes de eu fechar os meus olhos. E então eu percebo o quanto eu te amo, e fico sabendo que se você não estivesse mais lá, eu não teria mais motivo nenhum pra olhar em volta. Procurar você seria inútil, e isso terminaria comigo.
Eu te toco, minha mão no seu rosto é embalada pelos nossos risos leves, risos, quissá, apaixonados. Ainda não entendo como te amar tanto é possível. Essas borboletas no estômago, mas que droga, elas não param nunca quando você está por perto. Cada vez que a sua mão encontra o meu rosto elas voam enlouquecidas em mim. É irritantemente delicioso.”

Abri os olhos e olhei pro lado. Você ainda estava lá, graças a deus. Tenho medo toda vez que me perco nos meus pensamentos, mas mesmo assim, não consigo evitar. Tenho medo de que, quando eu voltar, você já tenha cansado de me ver viajando por aí, pensando longe, fugindo de tudo, tentando achar um lugar só pra nós dois; medo de que você vá embora sem me dizer o porquê ou, ao menos, me dar um tchau.
Nunca fui boa em falar de amor, em sentir amor, em ser amada ou qualquer coisa que se relacione com isso. Mas, infelizmente, “não ser boa” não significa “ser imune a tal sentimento”.
Foi estranho o jeito como você apareceu, tão do nada, apesar de já ter aparecido antes. Eu precisava de um ombro amigo, e te encontrei; precisava urgentemente de alguém que me valorizasse, que me tornasse mais completa comigo e com os outros, e então, eu te olhei, e você também me olhou; precisava dar a alguém esse sentimento que eu tinha em mim, guardado de muitos outros sentimentos, muitas outras decepções, muitos outros desafetos. Você mereceu, porque eu te amei desde sempre. Mas porque não antes? Porque não antes de tudo isso que aconteceu? Talvez porque é pra ser assim.
Sabe, eu nem acreditava que essa coisa de “borboletas no estômago” realmente existisse. Achei que era coisa de gente á toa que não faz nada da vida e fica inventando essas baboseiras pra atazanar quem tem alguma coisa pra fazer. Engano. Percebi isso logo na primeira vez em que você me tocou de verdade. Naquele momento, a única coisa que eu pensei foi “que droga, era tudo verdade”. Coisa estranha, não?
Agora, toda vez que eu acordo, me pergunto como é que eu vivia antes de você, como é que eu aguentava os meus dias sem o teu sorriso ou essa tua pose de machão metido a gostoso que me irrita, mas irritantemente, me alucina, me enlouquece, me faz te amar cada vez mais. Pensando bem, talvez não seja tão mentira assim. Talvez só me irrite porque é realmente verdade.
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O Violino de Austin

Acho que foi o meu único aniversário em que ninguém da família estava apertado. Papai tinha conseguido vender alguns móveis e a mamãe estava costurando melhor. Mas, por mais que eu pudesse exagerar um pouco dessa vez, a única coisa que eu poderia pedir era escutar. Desde o meu nascimento era só isso que eu fazia: “escutar e tatear, escutar e tatear, escutar e tatear...”
Bem nessa época, uma Orquestra bem razoável estava na cidade. Eu já havia escutado alguns concertos da janela do meu quarto, mas era tudo tão vago, tão vazio, tão longíguo. Eu queria sentir as notas penetrando de perto os meus ouvidos e a minha pele. Queria poder imaginar a cor de cada acorde, queria deixar que a melodia silenciosa dos dedos dedilhando as cordas dos instrumentos me fizesse dormir, mesmo que ninguém fosse reparar nisso. E foi o que eu pedi: uma entrada.
A mamãe quase caiu da cadeira quando eu comentei que gostaria de ir sozinho. Mas porque alguém precisaria ir junto? Tudo bem, eu não enxergo mas, fora isso, nasci saudável o suficiente para me cuidar pelo menos no meu aniversário. Meu pai a convenceu. Se não me falha a memória, foi a única vez em que eu o agradeci sem que ele me obrigasse ou que eu me sentisse obrigado. Fora isso, ele não era nada para mim além do meu progenitor.
Às vezes, quando eu prefiro sentir as estrela ao invés de dormir, me recordo de algumas coisas de quando eu realmente era pequeno. Lembro muitas vezes de ouvir meu pai falando que seria uma despesa a menos se me deixassem em qualquer lugar longe dali e eu nem perceberia a diferença. Pra ele eu não tenho sentimentos pelo simples fato de não ter desenvolvido os olhos, pra ele eu não sou um filho, sou um tormento, um aleijado.
Me envergonho de ter nascido dele, de ter sido gerado por ele, de ter a genética dele e de levar o nome dele no meu. Tenho medo de me tornar como ele é, de ser o mesmo homem que ele se tornou. Muitas vezes desejei que ele não pudesse ver, que um dia ele fosse como eu sou, que tivesse que sentir tudo e todos com a alma dos dedos. Tenho quase certeza que ele nunca conseguiria encontrar a garrafa verde de cachaça que a mamãe guarda na segunda porta do armário de cima da cozinha. Toda vez que eu penso assim, eu rio sozinho. Bom, como a garrafa é verde eu não sei, mas eu sinto que é, não poderia ser de outra cor.
Pois bem, lá estava eu, no meio de uma multidão de mãos, pés e vozes estranhas, procurando o meu lugar para sentar. Suspirei, mamãe tinha toda a razão, ela sempre tem razão, eu nunca ia conseguir sozinho. O jeito era pedir ajuda.
Toquei a mão esquerda de alguém. Era suave como quando a minha mãe dava pêssego pra eu comer no calor do verão, tinha cheiro de lavanda, unhas compridas, e dedo sem aliança; era nova e solteira. Pedi para que me mostrasse qual seria o meu assento e a moça apontou pra algum lado que eu não pude descobrir qual era, então eu a disse que era cego. O resto ela falou sorrindo, deu pra perceber pelo seu tom de voz. Disse que tinha vindo sozinha e que podia me fazer companhia se eu não me importasse, claro. Eu sorri e disse um simples sim.
Sentei no meu lugar e fiquei esperando o concerto começar. Enquanto eu esperava, a moça que estava me acompanhando tocou no meu rosto e eu me assustei, nunca ninguém estranho havia me tocado. Eu sentia que os olhos dela estavam em mim, mas não entendia o por quê até que ela disse, não com um tom penoso ou debochado, mas com um tom surpreso, que não podia entender como alguém tão bonito e charmoso como eu nunca tinha se olhado no espelho. Nessa hora eu senti um calor me contagiando e o sangue fluindo no meu rosto. Ela riu um riso leve e disse que eu havia corado, e então a Orquestra começou a tocar.
Senti como se meus membros já não fizessem mais parte do meu corpo, como se a minha cabeça zanzasse pelo salão, pelas cadeiras, pelos lugares ocupados, por todas aquelas mentes tão fascinadas quanto a minha. Degustei cada nota daqueles acordes como se nunca tivesse ouvido na vida, como se ao invés da visão, me faltasse a audição. Pensei em como pude não sentir aquilo antes, em como os barulhos da rua, das festas do quarteirão, dos saraus, dos Circos, nada daquilo jamais tinha me causado tamanho efeito. Vi toda a minha vida passando, como se cada parte dela fosse embalada pela música que tocava, como se cada momento da minha vida tivesse direito a uma trilha sonora. Porém, por trás de todas as notas, toda a melodia, todas as cordas e acordes, um instrumento se sobressaia, uma canção simples, penetrante, envolvente e quando a percebi, senti meu coração bater mais forte, mais intenso que o normal. Acho que não é o que a mamãe chama de nervosismo, mas não sei o que é. Apaixonei-me pela melodia daquele objeto e, naquele momento, quis saber qual era.
Mas como num sopro, uma brisa leve de primavera, acabou. As notas cessaram, o colorido que eu sentia terminou, o filme que passava na minha cabeça tivera fim e os meus ouvidos só escutam aplausos e murmurinhos de adoração. Então aquele mundo de gente começou a se movimentar, a sair do lugar em direção a saída. Me empurravam, esbarravam-se em mim e, por um momento, eu voltei a ser o garotinho com os ataques de pânico quando a minha mãe me levava até a feira fazer as compras da semana. Quase esqueci que não estava sozinho, até que uma mão macia com cheiro de lavanda tocou a minha e lembrei-me da moça que me acompanhara o concerto inteiro. Ela disse sorrindo que era pra eu ir com calma, ela estava ali, eu não precisava ter medo.
Depois que ela disse isso, eu realmente me acalmei. Só não entendia como ela sabia que eu estava com medo, minha irmã sempre dizia que eu era uma caixa de mistérios, ela nunca sabia o que se passava por trás dos meus olhos turvos. Bom, de um jeito ou de outro, ela estava me guiando desde o começo da noite, e eu era grato por isso. Pensei em falar mais alguma coisa, puxar algum assunto tipo “nossa, que noite linda, você não acha?”, mas eu não era a pessoa mais indicada pra falar uma coisa dessas. Quando chegamos na porta, aquela multidão já havia se dissipado e estava quase silencioso; pra ela devia estar, pra mim é que não estava. Eu podia sentir o coração dela batendo, cada pulsação leve e calma, muito diferente das minhas, que pareciam marchinhas de Carnaval. Isso sim deve ser o que a mamãe chama de nervosismo.
Bom, pelo que a minha irmã lera de seus livros românticos para mim, essa era a hora do “adeus, talvez nos vejamos por aí”, mas naquele momento eu não tinha coragem nem pra abrir a boca, então deixei que ela o fizesse, como tinha feito a noite toda. Ela perguntou como eu iria pra casa, não quis dizer que perguntou isso porque não sabia como um cego não se perderia nessa imensidão de ruas, mas eu sabia que era por isso. Disse-lhe que muitas vezes tinha saído sozinho de casa sem hora e companhia pra voltar. Era mentira.
Ela sorriu, disse que eu era um aventureiro de mão cheia e que me invejava por tamanha liberdade. Disse também que já era tarde, tarde demais pra uma moça solteira como ela estar na rua, deu um tchau tímido e saiu andando. Eu também dei um tchau, mas acho que foi tão baixinho e miúdo que ela sequer escutou. Quis perguntar o nome dela, mas achei atrevimento da minha parte. Deixei como estava.
Bem, eu não sabia voltar pra casa e também não sabia se queria voltar. Tinha sido a melhor noite da minha vida, não gostaria de deixar que a minha turbulenta família terminasse com os meus dezesseis anos. Então pensei em ficar ali, parado na porta do Teatro, sentindo a brisa, sentindo as estrelas, tentando fazer com que mais alguns anos passassem naquela noite... E do nada, como se eu tivesse feito o meu pedido ao assoprar as velinhas de aniversário, viva, eis que começa a chover.
Chuva pra mim era tal qual um concerto, cada pingo que cai no chão forma uma nota, tem uma cor. Era eu ali, sozinho, sentado nas escadas do Teatro aproveitando o segundo concerto da minha noite, quando outra musica, outro fundo musical começa a acompanhar aquela melodia silenciosa. Ouço o mesmo compasso, o mesmo timbre que se sobressaia no palco, a mesma harmonia tocante, os mesmo acordes solitários. Eu estava tão absorto na chuva que não reparei ninguém chegando, só quando escutei a música foi que percebi um perfume diferente. E lá estava, o mesmo homem que eu exaltava no palco, ao meu lado, tocando a melodia que havia me feito voar.
Quando parou, eu sorri. Acho que recebi um sorriso de volta, não sei, ele não respondeu nada. Não costumava puxar assunto, mas estava tão curioso que os costumes foram pra longe. Quis saber como era tocar, fazer música com os dedos, com a alma. Ele só disse “Experimente”. E eu estava apaixonado.
Ele me entregou o que eu havia descoberto a pouco. Um violino pequeno, leve, com cheiro de marrom e verniz. Tinha quatro cordas e uns arabescos estranhos em volta, uma almofada na ponta, um pouco pro lado, onde encaixava-se perfeitamente um pescoço. Achei aquilo engraçado, mas não parei de tatear. Passei os dedos pelas cordas, ouvi um ruído fino, depois um mais agudo, e acabei fazendo um barulho que dava pra chamar de música. Desajeitada, nada profissional, mas era música. Silencioso o homem ao meu lado esperava, senti, ouvia quieto, deixando eu me deliciar com aquela experiência. Não quis me aproveitar, então, relutante eu devolvi o violino.

Continua...
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Só Saudade

“Não quero pensar que deixar de viver perto de você vai nos afastar, vai nos corroer, vai nos destruir. Não quero saber se vou morrer te esperando, se vou deixar de viver pra poder viver contigo, pra podermos viver juntos. E se eu tiver que fazê-lo? Oras, vou fazê-lo. Não importa o quanto demore pra que aconteça, eu confio na sua palavra; 10, 15, 30 anos, sei lá. Por você vale a pena, e você sabe.Quero pensar que quando eu vier, você vai estar me esperando, vai estar no mesmo sofá, na mesma casa, do mesmo jeito. Quero o seu abraço, o seu cabelo, a sua mão. O seu cheiro e nós dois. Quero colocar uma foto nossa na minha cabeceira pra olhar todos os dias, quero beijar o nosso anel sempre antes de dormir, e acreditar que enquanto eu viver, você vai me amar e eu vou ser toda sua. E quando eu tiver 75 anos, ter perdido a vontade de morrer aos 35, de abandonar um filho homem e de querer ter meu ponto e ser de muitos, vou olhar pro lado e ver você rindo da nossa antiga cara, do nosso antigo jeito, da nossa antiga vida. De como nós éramos melodramáticos e loucos, viciados e alcoólicos, adolescentes imaturos, mas que se amavam. Vou lembrar de você onde quer que eu vá, mesmo que eu tenha te esperado a vida toda, e nada. Porque eu te amei, muito mesmo. E sempre fui sua.”
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Ironias do Amor

- É uma cápsula do tempo. Me dá a sua carta.
- Por quê?
- Vamos colocar elas aqui e enterrar, e em exatamente um ano vamos voltar, e desenterrar e ler as cartas e talvez a gente tenha respostas.
- E qual é a pergunta?
- A pergunta é: Vamos ficar juntos?
- Eu fico feliz com a pergunta, mas porque esperar um ano pra descobrir isso?
- Eu explico... Na minha carta.
- E eu vou ter que esperar um ano pra ler. Um ano é muito tempo, muita coisa pode acontecer.
- É... A gente vai se encontrar aqui, embaixo da árvore, em exatamente um ano. Às 14:00 horas, ta bom?

É claro que eu tava adiantado, e ela, é óbvio, tava atrasada. Eu comecei a me preocupar 14:30, 14:45. Às 15:00 eu queria esperar mais um pouquinho. Mas as 16:00 eu tinha que encarar a realidade, ela não ia aparecer. Só tinha uma coisa a ser feita...
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[...]

“Querido Charlie, olá. Como foi seu ano?
Charlie, eu tenho algumas coisas pra te falar. Quando nos conhecemos, eu disse que meu noivo tinha terminado comigo. Era mentira. A verdade é que ele morreu. Ele me deixou uma carta dizendo que sentia muito, mas que tinha muita dor. Eu fiquei um caco. Eu não podia aceitar isso, sabe? Então eu comecei a beber, e como você viu, eu não sou muito boa nisso. Eu era constantemente levada pra casa com estranhos em táxis. Foi por isso que o meu pai agiu assim com você. Honestamente, se você chegar algum dia a conhecer ele, você vai ver que ele é um homem muito bom. Eu era muito próxima da mãe do meu noivo. Eu tentei vê-la depois que ele morreu. Ela disse que tinha uma pessoa ótima que queria me apresentar. Ah, isso nem me passou pela cabeça. Então conheci você. Vocês dois são tão confiantes, gentis, fortes, na sua própria maneira. Você até é parecido com ele em várias outras semelhanças. Eram pequenas, mas pareciam importantes. Eu e ele nos conhecemos no metrô. Assim como eu e você nos conhecemos. Como você, ele tinha um lenço. Eu estava muito doente na época. E ele cuidou de mim, como você fez. Assim que você e eu começamos a nos conhecer, eu passei a sentir uma coisa diferente. Eu pensei que era porque vocês eram muito parecidos. Então eu decidi que eu e você iríamos fazer tudo que ele e eu tínhamos feito. Dessa forma seria como se ele nunca tivesse morrido, e a dor pararia. Por que no nosso 33º dia ele levou uma rosa para mim, eu pedi para você fazer a mesma coisa. Por que eu e ele fizemos nossos planos embaixo dessa árvore, eu fiz isso com a gente também. Por que eu e ele tínhamos um restaurante favorito, eu te levei até lá. Por que ele morreu no mar, eu te forcei a cair. E então eu salvei você. Tudo isso foi maluco, egoísta e errado. Eu sei, mas a dor deixa a gente assim. De qualquer jeito não funcionou. Em um determinado ponto eu percebi que eu não gostava de você porque você era parecido com ele. Eu gostava de você, porque você era exatamente quem você é. E toda vez que eu começava a ficar feliz, eu parava. Eu me sentia mal por me sentir feliz, eu me sentia errada. Por esquecer, por não pensar mais nele, nem que fosse só por um minuto. Eu sentia como se estivesse traindo ele. Tudo que eu consegui foi te machucar, Charlie. E essa não sou eu, não sou eu mesmo. Espero poder te mostrar isso. Alguma coisa tinha que ser feita. Pra gente dar certo no futuro, eu tinha que esquecer meu passado. E pra isso eu precisava de tempo. Eu espero estar melhor daqui um ano, e espero estar com você para ler essa carta. Mas se eu não estiver não é porque eu não amo você, porque eu te amo. E não é porque eu não sinto sua falta, porque eu já sinto sua falta. Só significa que ainda não estou bem. E que essa história ainda não acabou. Você vai esperar por mim Charlie?
Eu desejo com todo meu coração que você possa. Com amor, Jordan."
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[...]

- Senhor, está tudo bem?
- Está... oh, está. Desculpa por ficar te olhando, quando eu era mais novo costumava ser mais discreto, mas na minha idade eu não finjo mais, porque faria isso?
- Eu entendo.
- Então tudo bem se eu ficar te olhando?
- Pode olhar à vontade, se quiser.
- Isso é ótimo, obrigado.
- Essa é sua árvore?
- É sim... Bom, na verdade não. Mas essa árvore e eu temos um segredo.
- Vocês tem? Ela e eu também.
- Essa é sua pilha de pedras?
- É, é sim.
- O que ela guarda?
- Bom, um ano e um dia atrás, eu e meu namorado enterramos cartas aqui e prometemos que íamos nos encontrar esse ano, mas eu não apareci ontem.
- Eu entendo.
- E qual o seu segredo?
- Me diga, você voltou aqui desde que enterrou as cartas?
- Não...
- Sabe o que aconteceu nesse meio tempo?
- Não...
- Olhe bem para a árvore. Ela está como você se lembra?
- Hum, no começo eu achei, mas agora não tenho tanta certeza.
- A 4 meses, a árvore que estava aqui foi atingida e morta por um raio. O rapaz que substituiu a árvore vem bastante aqui, eu estive com ele uma ou duas vezes. Ele me disse que é muito importante que essa árvore esteja no lugar. Você acha que esse jovem é o que escreveu essa carta?
- Acho.
- Ele é muito bondoso. Muito forte, do jeito dele.
- É, ele é. Ele é sim.
- Bom, o fato de você vir aqui hoje, significa que está curada? É, eu li as suas cartas. Desculpe, foi muito errado da minha parte, mas as vezes é muito chato ficar aqui só desenhando. Além do mais, eu te disse, os velhos só fazem o que querem.
- Tudo bem.
- E então, você está pronta pra ficar com ele agora?
- Não teria vindo se não estivesse pronta.
- Ótimo! Isso é maravilhoso! Vamos, eu quero que leia a carta e ligue pra ele. Eu vou ajudar a desenterrar...
- Ahn, eu vou ler a carta, mas não vou ligar pra ele.
- Não? Depois de tudo pelo que passaram?
- Se o nosso destino fosse ficar juntos, eu teria me curado ontem.
- Mas que tipo de baboseira é essa? Ontem foi um dia atrás! Você não ficou curada por causa de um dia.
- Um dia muito importante. O destino se revelou. E procurar por ele seria como moldar e ajeitar o destino, e isso não é uma boa ideia.
- Vamos supor que ajeitar e moldar o destino seja, na verdade, o seu destino.
- Nunca pensei dessa maneira...
- Eu te digo o que é destino se realmente quiser saber, é o mínimo que posso fazer por você me deixar te olhar.
- O que significa?
- O destino é a ponte que você constrói até a pessoa amada.
- Claro, mas se for destinado a ser, vai ser, não é?
- Aaah, eu tenho escutado as pessoas me falando isso a 78 anos e vou te dizer uma coisa: isso realmente me irrita. Bom, vou te deixar com a sua carta, não é educado eu ficar aqui. Além do mais, você vai chorar. É muito comovente, ele deve ter feito muitos rascunhos. Eu te desejo uma história com final feliz, e sabedoria para procurá-lo.
- Obrigada.
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[...]

“Querida Jordan, essa é a história da primeira e última vez em que me apaixonei. Pela linda, complicada e fascinante mulher que habita em minha alma. Tenho certeza que você vai me deixar amanhã, então vou dizer isso enquanto eu ainda tenho chance. Estando juntos ou não, você sempre vai ser a mulher da minha vida. O único homem que eu vou sempre invejar vai ser aquele que tiver o seu coração, pois eu sempre acreditarei que é meu destino ser este homem. Se nunca mais nos virmos de novo, e você estiver por aí andando e sentir uma certa presença ao seu lado... Sou eu, te amando aonde quer que esteja!"
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Toda a Minha Gente

Tem gente que tem gosto de bolo de vó, de tarde de calor na piscina, de neve com café. Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. De terra molhada, de banho de chuva, de mãe quando sai do chuveiro, de caderno novo ou folha de Xerox. Tem gente que faz a gente sentir o coração pular quadrilha, gente que deixa a gente com gostinho de quero mais, saudades quando vira as costas, saudades quando vai embora e até saudades quando fica. Ao lado dessa gente, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Tem gente com cara de noite estrelada, de pôr-do-sol rosa – alaranjado, de sorvete com granulado, de etiqueta de roupa nova. Tem gente que faz a gente sorrir como manhã de primavera, como Jasmim desabrochando, como estrela cadente, como presente de aniversário, chocolate na depressão. Tem gente que nos faz feliz, gente que arranca coisas da gente, que a gente nem sabe que existe, que sente. Ao lado dessa gente, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado dessa gente, pode até ser abril ou fevereiro de Carnaval, mas parece manhã gostosa de Natal.
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Hospital de Bonecas

Seu toldo de cor clara, com pouco mais de dois metros de comprimento sobre uma única porta, traz impressas três palavras: Hospital de Bonecas. Ao adentrar por seu estreito corredor, os olhos se atordoam diante de um local realmente diferente e especial. O início de uma viajem no tempo.
Elas vêm de mãos puras e leves, de mentes delicadas e pueris, de cuidados infanto-juvenis, de pensamentos afáveis, de sorrisos e exaltações simples como as de uma criança. Elas fizeram brilhar os olhos de muitas delas, mas agora precisam de ajuda. Chegam ao hospital usadas, precisando de outros tipos de cuidados, mas além disso, precisam ter a certeza de que, no quarto da UTI, suas jovens e doces mães vão segurar seus dedinhos em suas mãos de pele macia e perfumada com lavanda, vão ser levadas pra casa e terão sua caminha, seu conjunto de panelinhas e xícaras de chá e suas roupinhas de volta.
Então são carregadas até a sala de cirurgia. Levam anestesia de beijos e abraços de despedida, ganham sorrisos e lágrimas de esperança, ganham lembranças, ganham vida nova. A cirurgia plástica vem em primeiro caso, afinal, foram seus traços suaves e amáveis que as levaram até suas mães. Os olhos já não tão brilhantes de porcelanas são retirados, lavados, polidos, pintados e abrilhantados, e logo logo retornam aos seus devidos globos oculares. O cabelo é reposto, quem sobrevive sem um mega? Fio a fio a sobrevida dessas pequenas filhas vai sendo trançada novamente, e a esperança vai sendo instante a instante, renovada na sala de espera.
Saindo da sala de Plástica, vem a sessão “Trauma”, onde todos esses são superados. O pescoço é novamente unido à cabeça, as mãos, as pernas, tudo no seu devido lugar. As vezes em que foi derrubada, deixada de lado, substituída ou largada em qualquer canto da casa são esquecidas, e tudo não passa de meras lembranças nesse momento.
O banho é tomado, as roupas novas são vestidas, os babados, os acessórios, o perfume, os sapatos, tudo como da primeira vez, e ela está nova. Continua a mesma, só um pouco mais nova.
O mundo dos brinquedos é um espelho do mundo em que vivemos. Antigamente, as crianças não brincavam de bonecas, elas eram as bonecas, e essas bonecas duravam anos e anos. Hoje se tem mais liberdade pra brincar, as crianças brincam a hora que querem e são quem querem. Assim, novas bonecas são compradas e outras são jogadas fora. Personalidades descartáveis.
Tudo isso, todo esse processo e todo esse Hospital, é mais que vender e restaurar bonecas, é abrir uma porta no tempo e nos chamar para uma reflexão acerca da infância, da história, do brincar e de como o mundo tornou as coisas (e os sonhos) descartáveis.
Para as pessoas é o preço que vale as lembranças de uma vida inteira.
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Raios de Anjo

Era estranho nós estarmos ali, pensei nisso naquele instante. Há pouco tempo atrás a gente nem se dava, tinha uma nuvem preta pairando sobre as nossas cabeças que afetava a nós dois. Ele me olhava com nojo, e eu o olhava com desprezo. Era um ódio recíproco.
Não dava pra acreditar que agora, olhando pro lado, eu via ele rindo junto comigo, correndo pra escapar da chuva, cobrindo-se com as mãos e pisando nas poças d’água só pra elas respingarem nas minhas calças azul-claro novinhas. Se fosse nos tempos passados, eu daria um chilique ali mesmo, no meio da chuva, e faria ele pagar uma calça nova igualzinha a que ele acabava de sujar de barro, mas hoje não. Hoje era diferente, hoje eu, hoje ele, hoje nós dois éramos diferentes.
O cabelo dele balançava com a brisa e o pouco sol que ainda restava – não pela chuva, mas por já estar entardecendo – fazia com que o sorriso dele parecesse ainda mais branco. Eu devia me repreender por olhar tanto assim pra ele, por estar detalhando-o na minha mente e desenhando-o cada vez mais perto de mim. Ainda devia existir um asco entre nós dois! Devia existir, mas se ainda houvesse alguma coisa que me fizesse não gostar dele, essa tal “coisa” devia ser muito insignificante, porque de nada estava adiantando.
E então, a chuva desabou.
Corremos um ao lado do outro até encontrar algum lugar pra ficar, pelo menos até que a chuva amenizasse um pouco. Tanto tempo conversando ali, e eu o conheci mais do que em qualquer um dos anos de convivência colegial que nós já havíamos tido. Éramos iguais, iguais nas músicas, nas escolhas, nos sentimentos, na preferência, no amor. Mas por mais que a conversa estivesse deliciosamente sublime, algo me chamou mais atenção.
Olhei pra cima e vi os “raios de anjo” bem perto do arco-íris mais brilhante que eu já tinha visto. Desde quando minha mãe se fora, aquilo era o que me fazia pensar ainda mais forte que ela estava sempre ao meu lado. Era um símbolo pra dizer que ela nunca iria deixar de me olhar e de zelar pela minha felicidade. E, naquela hora, ela estava ao meu lado.
Fiquei ali parada, me sentindo um tanto sozinha olhando aquele arco-íris enquanto ele conversava comigo e eu não definia mais palavras, era só um rosto, uma boca em movimento. Minha cabeça estava viajando, girando pelo mundo, procurando algumas das respostas que eu realmente queria encontrar.
Mergulhada nas memórias de antigamente, de quando eu era bem pequena e acreditava em contos de fadas, papai Noel e fada do dente, lembrei de uma história que minha mãe me contou desmentindo algumas outras. Uma vez eu estava olhando a chuva pela janela e vi algo brilhando no quintal, olhei pros céus admirada em achar um arco-íris. Não havia dúvidas, o pote de outro estava do lado de fora de casa só esperando pra que eu o encontrasse. Mas quando eu cheguei perto daquele brilho, era só uma moedinha de nada caída na grama verde. Eu chorei muito, olhei pra minha mãe e perguntei se o final do arco-íris não era ali, se o pote de ouro e toda a riqueza não ficavam na nossa casa. Ela me pegou no colo, afagou os meus cabelos e disse quase chorando que no final do arco-íris não tem nenhum pote de ouro do pequeno duende verde, nem um tesouro enorme que vale milhões. O arco-íris é diferente pra todos e, no final dele, só existe aquilo que você mais deseja, mais ama, e mais quer proteger. O final do arco-íris, pra ela, era ali. E o meu estava bem ao meu lado.
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Longe de Você

Eu acordei quase pior do que quando havia ido dormir. Estava desnorteado e ainda um tanto dopado, os remédios para depressão e insônia não tinham perdido o efeito e eu saí da cama cambaleando para todos os lados.
Segui em direção ao banheiro com a sensação da bile chegando até a boca, com aquele embrulho, aquela vertigem dos infernos. Fui direto ao vaso e lá despejei tudo de ruim que havia dentro de mim, ou quase tudo. Naquela hora que levantei a cabeça e caí dentro do Box úmido do banheiro, me perguntei se o que não existia podia ser combatido. Havia em mim uma coisa que o vômito não tinha posto pra fora: o vazio.
Levantei e liguei o chuveiro na água fria. Não sentia nada. Nem frio, nem dor, nenhum tremor corporal, nada. Só o vazio que ainda habitava ali e o barulho das gotas caindo no piso gelado. Saí. Peguei a toalha e me enxuguei com fúria, tentando arrancar de mim todas aquelas feridas que me torturavam. Não funcionou. Fui até o espelho e nada me admirou o que presenciei ali: eu nada via.
Há tanto tempo eu achava ter superado tantas perdas, mas ninguém precisa ser forte 365 dias por ano, precisa? Eu tinha escondido, deixado que o tempo apenas tirasse aquele sofrimento do centro das minhas atenções. Uma foto, uma maldita fotografia escondida em algum canto do meu armário me deixou desse jeito, sem rumo. Aquela sensação de desgosto veio à tona, perdi o chão na hora. Em todos esses anos tentei não lembrar daqueles olhos castanho-mel que tanto me enlouqueciam, que tanto me hipnotizavam, e quando olhei pra ela, ali parada para o flash, sem movimento algum, só com uma expressão de ‘dia feliz’ no rosto... Ah, foi uma facada em meu peito, a mais dolorida. Pensar que eu não a tinha do meu lado, que seu corpo esguio já não esquentava mais o meu nos dias frios de inverno, que seu sorriso já não iluminava todo o escuro do quarto, que as suas lágrimas doces agora corriam apenas pela minha face, porque a dela já não existia mais.
Fechei a porta do banheiro com uma força estrondosa e corri, corri para fugir de um passado que não havia passado, só esperado a hora certa pra voltar. Tranquei-me no quarto. Fiquei lá, sozinho, sentado na cama, balançando de um lado para o outro em uma atitude totalmente autista, tentando tirar da minha memória todas as lembranças que ainda restavam dela, do seu perfume, do seu jeito maravilhoso de andar e de cantar. E como cantava bem. Por muitas e muitas noites eu dormi ouvindo aquelas melodias afinadas saindo da sua boca, aquelas canções que traziam a nostalgia da minha infância, das brincadeiras, dos banhos no riacho, dela. Eu estava enlouquecendo.
No dia em que ela se foi, eu quase fui junto. Éramos como queijo e goiabada: totalmente diferentes, mas juntos se entendiam tão bem que criavam outro gosto. Eu vivia pra ela, pra ver nem que fosse uma vez no dia, aquele sorriso, aqueles olhos sedutores brilharem. Ela era a minha estrela mais brilhante, e se foi.
Foi como perder a vida através de outra pessoa. Fiquei meses sem ir trabalhar, sem atender telefonemas de amigos e familiares, sem sair de casa, sem ver ninguém. Ela fora minha vida por oito anos, e agora havia acabado. Eu não podia superar essa idéia.
Parei com a nostalgia quando percebi que seria mais difícil do que o normal voltar à realidade. Levantei, me vesti e saí de carro. A nossa foto, a do ‘dia feliz’, estava no bolso da minha camisa, perto do meu coração, de onde aquela mulher jamais sairia. Eu sabia. Estava indo ao seu encontro, e não senti medo algum em saber disso.
Dirigi por horas seguidas, sem sono, sem fome, sem vontade alguma, estava seguindo as cegas, deixando que a minha intuição me guiasse pra algum fim trágico ou nem tanto. Parei. Estacionei em um lugar deserto, com a brisa batendo no rosto e o sol se pondo logo à frente. Peguei a flor que tinha comprado na floricultura da esquina e atirei no precipício que tomava toma a imensidão que os meus olhos alcançavam. Tirei a foto do bolso e a beijei pela última vez. Meus lábios se abriram e uma única frase foi pronunciada: “Estou indo ao seu encontro, meu amor, porque amores como o nosso duram mais que uma vida”.
E o silêncio me seguiu. Não era mais o vazio, porque de algum modo, eu ia encontrá-la, só o silêncio e a solidão.
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Graças a Deus e ao Diabo

Mais um dia normal, mais uma terça-feira normal, enfim, a mesma rotina normal. E como normalmente, eu não estava bem. Tinha me sentido mal a noite toda, aquela sensação de ansiedade, de claustrofobia, de pânico, de borboletas no estômago. Definitivamente não tinha sido uma noite boa.
Tive que acordar mais cedo, era necessário. Tomei o banho mais cedo, me vesti mais cedo, soquei meu café garganta abaixo mais cedo, fui pro colégio mais cedo. O ar “fresco” das sete e vinte da manhã costumava me fazer bem, mas a essa altura, nem isso adiantava.
Sinceramente eu estava sentada naquela mesa com a esperança de ver ele, de longe nem que fosse. Me fazia feliz só observar ele entrando sorrindo pelos portões do colégio logo cedo. O vento que batia no cabelo dele me fazia sonhar, sempre.
É, como eu queria, ele chegou. Achei que, como sempre, ele ia seguir reto, ia olhar pro lado, me dar o bom-dia de sempre e continuar o trajeto. Bem, não foi assim. Ele se dirigiu até mim, viu a minha cara de “noite-mal-dormida” e perguntou o que aconteceu:
- Hei Gabi, tudo bem?
Até agora tudo estava dando errado. Então como ele podia chegar do nada e fazer da minha manhã tão sublime e feliz? Definitivamente eu estava enlouquecendo.
- Queremos sinceridade aqui?
- Eu gostaria...
- Na verdade, nada está muito bem...
A essas alturas, eu já estava com a mão na boca, tentando esconder o rubor das minhas bochechas e o calor que eu estava exalando pelo nervosismo.
- Hum, quer me contar?
- Talvez.
Ele sorriu. Talvez soubesse que quando sorri, eu me desmancho toda, e se ele pedisse, naquele momento, pra que eu me jogasse de qualquer ponte, eu me jogaria. Então, fazer o quê, falei.
- Já sentiu a necessidade de ter uma pessoa por perto? De quando ela te vira às costas, sentir vontade de sair correndo atrás e puxá-la de volta, pra que ela nunca mais saia de perto? De querer nunca desgrudar dela, de ter ela sempre do seu lado, como porto-seguro, como suporte, como base, como companheiro, como amor?
- Acho que sim, bem recentemente, mas pode continuar, estamos falando de você agora.
- Bem, indo direto ao assunto, tem um “nada sortudo” me encantando por aí.
Ele riu, de novo. Senti meu coração descompassar, perdi o ritmo, perdi o raciocínio, perdi o chão. Era só ele ali. Ele pra mim, e eu... Nada pra ele.
- Ah, isso. Também tem uma me arrancando suspiros.
- Há, ela seria uma imbecil que se não cedesse aos seus encantos, gringo.
Antes que qualquer um tire uma conclusão precipitada, eu costumava chamar ele assim sempre, era como se eu estivesse sendo irônica, afinal, a mais branca ali sempre fora eu.
Ele sempre ria daquela minha piadinha constante quanto as nossas cores, mas daquela vez não. Sendo um pouco insegura, eu realmente me assustei quando ele não riu. Jurei não ter agradado e, novamente, perdi o fio da meada.
Ele ficou sério, me olhou no fundo dos olhos, tentando me arrancar uma verdade que ele não tinha certeza se existia. Mas o que ele queria, eu tinha para dar.
- Você seria imbecil?
- Imbecil? Quanto?
- O suficiente pra gostar de um garoto como eu?
Gelei, minha alma fez um passeio pela escola e voltou. Em alguns segundos, todos os tipos de sentimentos e expressões tinham passado pelo meu rosto, mas com certeza, só eu havia me tocado disso.
- Se eu seria? Pra falar bem a verdade... Eu sou.
Fiquei roxa, verde, azulada, amarelada, até chegar a uma cor que pudesse de dizer parecida com vermelha. Mas passou. Senti um alívio tão grande por ter falado aquilo, por não ter mais que guardar tanto segredo, uma amizade que nunca tinha existido e que eu tinha certeza que não se tornaria colorida. Pelo menos não como eu estava aparentando agora.
Mas, para a minha incrível e inacreditável surpresa, ele não se acanhou, não se assustou e muito menos se afastou. Ele riu. Riu como se toda a vida dele dependesse daquilo, riu como se só tivesse chegado ali pra me arrancar aquilo e, agora, eu estava começando a temer que ele me virasse às costas se aproveitando da minha confissão.
Não, ele definitivamente não fez isso. Ele gargalhou, e quando ele fez isso, eu jurei ter escutado sinos batendo em dia de neve, tudo branco, tudo claro, tudo pra mim. Era isso que ele era. Tudo. Só um som eu ouvi naquela hora, além dos NOSSOS corações, claro. A voz dele.
- Você é a imbecil mais linda e com os olhos mais brilhantes que eu já conheci...
E eu me perdi. Me perdi na sua boca, nos seus olhos, nas suas mãos tocando o meu rosto e nos seus braços me envolvendo. Graças a Deus, aquela era uma manhã fria. E graças ao Diabo, o sinal tocou.
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Cidade Luz

Se existem amores de verão ou primavera, podemos chamar esse de amor de Inverno.
Não vamos dizer que tudo na minha vida deu certo, não mesmo. Mas bem, eu sempre fui uma garota de muita sorte. Berço de ouro – no sentido LITERAL da palavra -, pai rico, mãe famosa, carro importado, beleza natural e bo-ni-ta, definitivamente bonita. Tinha cabelos com cachos castanho-claros, olhos verdes - um verde água de dar inveja a muita gente -, pele lisa, cor de pêssego, bochechas vivas e rosadas, sem necessidade alguma de maquiagem e, segundo as medidas da atualidade, magra.
Quem me dera isso ser tudo para ter uma vida perfeita.
Eu poderia tranquilamente ser uma modelo, até já tinha tido algumas oportunidades muito palpáveis, mas colocando na balança que eu ia ter que deixar de comer pra ficar tão magra quanto era, não valia a pena. Comer é um dos maiores prazeres mundanos, eu não estava disposta a abrir mão disso. Mas também nem era preciso. Conhecida eu já era, famosa nem tanto, mas a fama da minha mãe já me bastava; meu pai era muito, muito rico, então consequentemente eu também era. Podia muito bem não ser nada na vida, mas meu orgulho era demais pra que essa ideia tomasse conta da minha cabeça. Cursava o último semestre de História da Arte e, exatamente por isso, estava sempre viajando.
Sempre, sempre mesmo tive tudo o que queria. Se eu pedisse um pedaço de qualquer lugar, eu devia ter no mínimo umas 25 pessoas pra conseguir isso pra mim. Mas não era tudo o que eu desejava, não mesmo. Queria alguém que pudesse me dar as coisas simples da vida, alguém que abrisse mão de coisas importantes pra ter um relacionamento estável, uma vida digna de contos de fada, sem a riqueza claro, até porque isso eu já tinha, mas com o príncipe encantado, não um de cavalo branco ou lindo feito o Brad Pitt (até porque, eu nem acho o Brad Pitt bonito, arg), mas alguém que fosse encantado pra mim, SÓ pra mim.
Ok ok, até aí tudo certo. Queria alguém, isso era fato, mas não tinha ninguém em mente. Sabe, chegava até a ser complicado, pelo menos pra mim, ter um relacionamento. Meu pai sempre quis um casamento com um homem “tão rico quanto ele” e minha mãe sempre quis um galã de novela das oito pra ser seu genro. É difícil juntar os dois! Por esses e muitos outros motivos, eu nunca mergulhara de alma e coração em um namoro.
Tá, eu era uma garota “pra casar”, mas por enquanto eu estava aproveitando a vida, gastando o dinheiro da minha futura herança, curtindo todas as noites que eu iria perder embalando um bebê, conhecendo os melhores lugares do mundo, mas sem ninguém melhor do meu lado. Bem, é o preço da liberdade.
Ah se eu soubesse que todo esse meu pensamento estava prestes a mudar, não teria ido viajar naquele feriado, podia muito bem ter ido à festa da mamãe, ou ao jantar do papai, qualquer coisa, menos viajar.
Se eu não me engano, estava andando nas ruas cobertas de neve em Paris (típico não? um romance como esse só poderia ter começado lá), mais especificadamente pela Rue Charlot, num brechózinho qualquer comprando umas lembranças pras amigas, quando esbarrei com ele sem querer. O infeliz derrubou minhas compras! Mas como um ótimo Parisiense, parou com tudo pra me ajudar. Fofo, não?
Ele de todo não era bonito, mas tinha os olhos, que apesar de não serem tão claros quanto os meus, aliás, nada claros, eram os olhos mais expressivos que eu já tinha visto. A boca tinha um formato bonito, era cheia e confesso que senti um certo desejo quando a olhei, o cabelo era volumoso, bem preto. Ele não parecia nada Parisiense... E não era. Bom, descobri isso depois de uma conversa num cafezinho, perto do brechó, mas isso não vem ao caso. Ele, definitivamente, era muito charmoso.
Nos despedimos, afinal. Eu tinha gente me esperando, oras. Era uma mulher importante! Mas como sempre, comigo ninguém ficava entediado por muito tempo. Por algum acaso, citei em algum lugar dessas palavras que, por mais que eu tivesse tido uma das melhores educações do país, fosse aluna dos melhores professores e cursasse História da Arte na melhor faculdade, eu era um tanto destrambelhada? Pois bem, como sempre eu tinha que me apresentar. Em um movimento um tanto quanto informal, tropecei, sem querer, juro, em uma pedra no chão e pimba! Quase caí. E ele me segurou, me enganchou, me abraçou, não sei, fez mágica pra que eu não caísse, e funcionou.
Nos tocamos, sentimos os nossos perfumes misturando-se e ficando cada vez mais doce, e nossos rostos cada vez mais perto. E como eu disse, tinha gente me esperando... A porcaria do meu celular tocou. Depois daí, eu só tive tempo pra um “opa, desculpe-me, mas tenho que ir, tome o meu cartão e quando puder, me ligue” em um Francês um tanto quanto forçado, afinal, eu tremia inteira. Ele me respondeu em Português, o que me deixou um tanto quanto surpresa, por mais que eu soubesse que Francês ele não era. Sorri, virei as costas e saí.
Fiquei aquele maldito chá de conhecidas inteiro pensando naquele homem. Eu nem sabia o nome dele, pra que tanto sentimentalismo barato? Eu estava ficando era louca. Havia inúmeros homens rastejando aos meus pés, eu não precisava de um charmoso, eu podia ter um completo. É, minha cabeça pensava assim, mas minha pernas que ainda tremiam não me deixavam esquecer dele, muito menos do perfume dele.
Fui logo pro Hotel, não aguentava mais aquelas velhas chatas perguntando da minha família e dos filmes da minha mãe, inventei uma desculpa e me mandei dalí. Pra minha felicidade, poucos minutos depois ele me ligou. Combinamos um encontro ou uma coisa parecida, ele disse que tinha uns lugares pra me mostrar e tinha toda a certeza de que eu não os conhecia, ou até conhecia, mas nunca tinha parado pra olhar. Topei na hora, pra que ficar sonhando com um homem se você podia estar na presença dele?
Nos encontramos no mesmo cafezinho em que tínhamos conversado aquela tarde, e olha, ele estava mais charmoso do que antes. Conversamos mais um pouco, tomamos mais um café (não são tão bons quanto os do Brasil, mas não deixam de ser deliciosos) e saímos andar. Fiquei surpresa ao ver que nós estávamos parando perto da Torre Eiffel, eu já a conhecia, todo mundo que passa por Paris a conhece! Ele me olhou e disse, numa voz mais linda do que os seus olhos “a Torre eu sei que você já viu, eu quero que você veja Paris da Torre”. E realmente eu nunca tinha visto, nem Paris da Torre, nem coração batendo tão forte quanto o meu.
Definitivamente era lindo, lindo demais todas aquelas formas iluminadas pela noite Parisiense, por ele, por tudo. Não acreditei quando começou a nevar, era perfeito demais pra ser verdade, eu só podia estar sonhando um romance do alto da Torre Eiffel, COM NEVE!
Bom, não era sonho e estava começando a ficar um tanto quanto frio. Ele tirou o casaco dele e me deu, disse que preferia ficar doente a me ver enferma. A única coisa que eu fiz foi rir. Mas um riso puro, um riso feliz e, como se os sinos das Igrejas tivessem combinado de tocar ao mesmo tempo, meu riso embalou a melodia do nosso primeiro beijo. Primeiro beijo, no inverno, em Paris, na Torre Eiffel e na NEVE! Quer mais o quê?
Cheguei a conclusão de que era ele, não podia ser mais ninguém. Nunca em toda a minha vida eu havia sentido coisa tão bonita quanto aquele sentimento, e olha que muitos homens tinham passado por mim. E, pela primeira vez, eu me senti segura, me senti amada, me senti completa.
Eu procurava um amor completo, e acabei achando alguém que me completasse. Procurava alguém rico e bonito, mas nunca tinha parado pra olhar a riqueza e a beleza que as pessoas traziam na alma, nos olhos, no coração.
Eu passei a querer a presença dele sempre, todos os dias de inverno, todos os dias de verão, quissá todos os dias da minha vida. Sabia que podia viver sem ele tranquilamente, mas se tivesse oportunidade de escolher, escolheria ficar ao lado dele sempre, sempre e sempre. Sabia que não estava amando, mas sabia que estava feliz, feliz demais.
Ele era perfeito e encantado, pra mim. Não me arrancou suspiros desesperados nem tirou minhas noites de sono, não me fez sentir calafrios nem borboletas no estômago, não me fez oferecer coisas que eu não poderia dar, não me fez prometer coisas que eu não poderia cumprir, não pediu pra que eu o amasse pra sempre nem falou a mesma coisa. Por quê? Porque ali, com ele, eu me senti segura, me senti nos braços de alguém especial; não nos braços de alguém que eu poderia amar pra sempre, mas nos braços de quem valia à pena tentar tamanha façanha.
E eu ia construir um amor, uma vida, daí.
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Nikon D3X

Esses dias, levei minha cadela Madyson pra passear pela cidade, ela nunca fica sem passear. Mas dessa vez tive que levá-la cedo pra casa, as ruas estavam tumultuadas demais pro gênio difícil que ela tem. Certo então, entrei no pátio de casa e soltei a coleira, mas meu instinto de Jornalista curiosa não deixou pra depois, voltei pro tumulto; queria saber porque uma cidade tão pacata tinha virado pólo turístico do nada.
Numa das primeiras ruas da “Sessão Cultural”, uma galeria estava sendo usada para uma exposição de fotos velhas. Confesso, não curto muito disso, mas entrei e dei de cara com uma mesa repleta de fotos antigas, cerca de cinqüenta anos de existência. Nelas eu via fotos de Hippies em praias de nudismo, paisagens magníficas fotografadas por câmeras amadoras, festas antigas, roupas antiquadas, pessoas sem roupa, sorrisos, mulheres bonitas, homens jogando frescobol, crianças chorando, cachorros latindo, correndo, todos molhados... Até achei uma foto que eu tinha certeza que era de Madyson. Na placa logo abaixo da mesa havia uma escrita: “Fotografias de Louis de Antuan (fotógrafo amador Francês), encontradas no chão de seu apartamento no Rio de Janeiro, onde residia a alguns anos, ao lado do seu corpo”.
Depois daquilo, fiquei pensando tanta coisa... Cinqüenta anos, apenas cinqüenta anos depois de todas aquelas fotos serem tiradas, a tecnologia invadiu a simplicidade e hoje se tira uma foto daquelas sem ao menos estar no lugar. Se a foto não ficou boa, apagamos ou editamos, nada de filmes pra queimar, fotos desfocadas para serem colocadas fora, nada de fotos espontâneas ou sorrisos sinceros, tudo pose, tudo book, tudo editorial, tudo campanha. Se a foto não deu certo, se apareceu uma espinha ou uma ruga, se a gordurinha do Presidente saltou pra fora, se um míssil não deu certo, taca PhotoShop em tudo que resolve na hora.
Agora fico me perguntando, nos próximos cinqüenta anos tudo vai mudar, lá vem dobrando a esquina mais uma revolução da tecnologia, os PhotoShops mais avançados, as modelos cibernéticas, os computadores de tudo. Então quantos anos demora para um robô da próxima geração encontrar as nossas fotos digitais espalhadas pelo chão do futuro?
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Definitivamente, Todos Mudam

Não acontece de uma hora pra outra, e comigo também não foi assim.

Eu olhava a vida por outro ângulo, uma coisa mais pueril, um sorriso mais maroto, uma visão menos virtuosa, um pensamento menos futurístico. Eu tinha um gênio e uma personalidade, minha birras, minhas TPMs, meus altos e baixos, meus momentos de criancices e de maturidade, mas tudo mudou e eu já não me conheço mais. Eu penso coisas que antes não pensava desejo coisas que antes nem passava pela minha cabeça desejar, sinto-me deslocada com mais facilidade, analiso demais as pessoas e as julgo erroneamente antes de conhecê-las; eu vejo tudo de um jeito distorcido do que era antes, falo coisas que nunca imaginei falar, e não me arrependo, porque sei que é a verdade. Sorrio com mais facilidade, e não tenho MAIS tantas alterações de humor, tento manter minha maturidade no lugar, assim como o meu juízo. Senti coisas que acreditavam não existir e desejei algo com tanta força e vontade que fui lá e realizei. Eu posso, eu consigo e eu faço. Amadurecer, crescer. Seja lá como for a palavra, o que importa é que acontece com todos, cada um ao seu tempo, e o meu pareceu demorar. Fui, por muito tempo, a garota indecisa, a que todo mundo dispensava entender, a que tinha limitações de todos os modos, a “de lua”, a complicada, a mal-humorada, a irritadiça. Mas esse tempo passou.Antes eu tinha medo, medo de tudo. E estou com medo nesse instante, mas agora o medo é de mim, não do resto, porque esse medo eu não tenho mais. Acordei, e vi em mim o que não via antes. Confesso, procurei ajuda em outras pessoas, outras mentes que ajudaram a expandir a minha, outra gente que me entendeu e me ajudou.Você consegue, se tentar, fato. Se você abre uma porta, pode ou não entrar em uma nova sala. Pode não entrar e ficar observando a vida passar, mas, se você vence a dúvida, o medo e entra, dá um grande passo: vive. Só que tudo tem seu preço. Às vezes, quebra-se a cara, às vezes curtem-se mil e uma, o grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta.Então chegou a minha vez, levantei a cabeça, dei coragem ao coração, escolhi uma porta, entrei e vivi. Sem arrependimentos, sem amarguras, sem passado e sem futuro, só o agora. Enfim, a vida não é rigorosa, ela só propicia erros e acertos. Os erros podem ser transformados em acertos quando aprendemos com eles, do contrário, só te deixam no chão.Reinventei-me, e agora aprendo a lidar com isso. Cada dia uma lição, e não tenho mais medo disso, porque essa, definitivamente, sou eu.
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Um Dia, Passa

Eu me arrumava no meu quarto quando minha irmã me chamou. Estranhei. Afinal, não esperava absolutamente ninguém. Desci as escadas uma a uma, contando-as sempre como fazia desde criança, até chegar ao final sem saber o pesadelo que me esperava.Alguém aguardava a minha chegada em frente a minha casa. De início não reconheci, mas quando cheguei mais e mais perto, gelei, CONgelei. Parei ali mesmo onde eu estava, cara a cara, olho no olho com a pior – ou melhor – coisa que já havia me acontecido. Eu definitivamente não sabia o que fazer, suava frio, não estava preparada para aquilo. Ele, logo ele, ali, na minha porta. Porque é que ele estava ali? Qual era a sua intenção? Me atormentar? Trazer de volta todo aquele pesadelo, aquela parte sombria da minha vida, à tona?Ele tinha um sorriso malicioso na boca, e eu não definia se era pelo meu espanto ou pela realização dele naquele momento, mas eu sabia que ia enlouquecer se continuasse encarando-o, olhando fixamente para aqueles olhos desconcertantes que haviam me prendido em um mar de tristezas sem fim.Para o meu espanto ele veio se chegando, aproximando-se cada vez mais e me dei por conta que, mesmo querendo, eu não me movia, eu não tinha reação alguma. Eu não podia deixar aquilo acontecer, não agora. Depois de tanto tempo, eu estava recuperada de tudo, não curada, só recuperada. Não era como se aquela dor tivesse saído do meu peito, como se aquela ferida tivesse curado, era como se ela nunca tivesse existido. Tinha tirado do centro das minhas atenções aquela sensação de mal-estar que me sucumbia, que me devorava por dentro.Quando fui deixada por ele, me perdi. Não vivia mais. Tudo o que eu fazia, por meses, era em função dele, pro seu bem, pra sua vida, não pra minha. Deixei de ser eu, perdoei coisas imperdoáveis porque estava cega, ou porque realmente não queria enxergá-las.Quando me dei por conta, ele estava junto de mim, me engolia com os olhos, as nossas bocas quase se encostavam e eu estava permitindo. Seu cheiro me desnorteava. Aquele cheiro que, agora me enjoava, já havia me protegido em dias frios, quando a nostalgia fazia questão de me abraçar. Aquele cheiro ficara impregnado em mim, e eu havia feito de tudo um pouco para tirá-lo. Era quase impossível resistir. Quase.Eu gritei. Gritei como se minha vida dependesse só daquilo. Gritei, rompi o véu dos sonhos, gritei como se estivesse morrendo, e na verdade, eu estava.Morrendo nos braços dele, por ele. Rezei. Era a única opção que restava. Nunca acreditei que aquilo pudesse ajudar, mas não havia outra maneira. Rezei para nunca mais acordar, ou para acordar logo, rezei por um motivo que eu desconhecia, mas rezei. E, como eu tinha previsto, de nada adiantou. Quando abri os olhos, ele ainda me olhava da mesma maneira, tentando ler a mim, e seus braços ainda envolviam minha cintura tão severamente que parecia uma jaula, da onde eu sabia que jamais iria sair.Eu me debatia, enquanto todas as lembranças, todos os momentos, todas as risadas, os beijos, as brigas, enquanto tudo passava em minha cabeça como um filme nostálgico aterrorizante. Eu o olhava de relance e o seu jeito de me olhar ainda era o mesmo, intacto. Me dei conta que sua expressão não havia mudado e a última imagem de nós dois, de uma dupla que nunca existiu, chegou até a minha memória. O mesmo sorriso, o mesmo olhar, a mesma malícia. Um beijo, o último. A morte unida à vida, a minha vida se esvaindo através dos seus lábios doce transbordando veneno. Não podia ser.Acordei assustada, ainda o sentia colado, grudado no meu corpo. Ainda sentia os seus braços, os seus lábios, as vertigens. Tinha sido só um sonho. Um terrível sonho. Mas ia passar, tinha que passar, ia passar.
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